Da Redação Olhar Informação
O adeus ao mestre japonês que transformou o trauma de Nagasaki em pinceladas de esperança, unindo a delicadeza do oriente ao vigor das paisagens mato-grossenses em uma trajetória de resiliência e ensino que marcou gerações na UFMT e na Capital.
Cuiabá amanheceu mais cinza nesta quarta-feira. Faleceu ontem, 17 de fevereiro, aos 86 anos, o artista plástico e professor Masanobu Kazurayama. Figura emblemática da cultura cuiabana, Kazurayama não era apenas um mestre das telas; ele era um arquivo vivo da história mundial e um exemplo de como a arte pode servir como refúgio e cura.
De Nagasaki para o Coração da América do Sul
A trajetória de Kazurayama é marcada por um início dramático. Sobrevivente do bombardeio atômico de Nagasaki, em 1945, ele vivia em Kumamoto — a apenas 30 km do epicentro da explosão — quando o mundo mudou para sempre. Em entrevistas memoráveis, como a concedida ao portal g1 em 2017, o artista relatava como o impacto da guerra moldou sua visão de mundo e, consequentemente, sua urgência em criar.
Em 1961, ele escolheu o Brasil como novo lar, trazendo na bagagem a técnica oriental e a sensibilidade de quem viu a destruição de perto. Ao se estabelecer em Mato Grosso, o artista encontrou no Pantanal uma fonte inesgotável de inspiração, fundindo as paisagens de sua terra natal e do Canadá com a exuberância da flora e fauna locais.
Legado no Museu e na Academia
Kazurayama foi uma peça fundamental na estrutura artística do estado. Como mestre de pintura no Museu de Arte e de Cultura Popular (MACP) da UFMT, ele formou dezenas de turmas, transmitindo não apenas técnica, mas a filosofia por trás de cada traço.
Suas exposições anuais no Museu do Morro da Caixa d’Água Velha eram eventos aguardados no calendário cultural de Cuiabá, servindo como uma ponte estética entre o Japão e o Centro-Oeste brasileiro.
Homenagens e Reconhecimento
A Prefeitura de Cuiabá emitiu uma nota oficial lamentando a perda, reiterando o compromisso do mestre com a educação artística e seu talento inquestionável. Amigos e ex-alunos inundaram as redes sociais com homenagens ao homem que, com paciência oriental e alma cuiabana, ensinou que a beleza é a resposta mais forte para qualquer tragédia.
Olhar Informação: A arte de Masanobu Kazurayama foi o elo final entre a resiliência histórica e a identidade visual de Cuiabá; perdemos o homem, mas suas cores permanecem eternas no horizonte mato-grossense.
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