Por Olhar Informação (Fonte Diário de Cuiabá)
Um novo capítulo na queda de braço entre o funcionalismo público e o Governo de Mato Grosso se abriu nesta semana. A motivação é a sanção da Lei Complementar 226/2026 pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que revogou os efeitos da antiga LC 173/2020. Com isso, foram "descongelados" diversos benefícios que permaneceram suspensos por 583 dias durante o auge da pandemia de COVID-19.
O cenário coloca em xeque a narrativa da "saúde financeira inabalável" do Estado. Segundo análise publicada pelo Diário de Cuiabá, a robustez do caixa mato-grossense foi construída, em grande parte, sobre três pilares: os recursos federais da pandemia, a renegociação de dívidas de 2019 e, principalmente, o congelamento salarial que corroeu o poder de compra de 150 mil servidores.
O Saldo da Pandemia em Números
Enquanto o Governo Mauro Mendes justificava a ausência de reajustes pelos impactos da crise sanitária, os dados demonstram que Mato Grosso recebeu um fôlego bilionário. Ao todo, o estado usufruiu de R$ 15,4 bilhões em benefícios e recursos federais.
A divisão desses valores revela o impacto no Tesouro:
- R$ 8,9 bilhões: Destinados ao Tesouro Estadual e aos 141 municípios (R$ 4,96 bi para o Estado e R$ 3,94 bi para cidades);
- R$ 4,2 bilhões: Auxílio-pandemia pago diretamente à população;
- R$ 1,7 bilhão: Investimentos diretos na Saúde Pública;
- R$ 624 milhões: Valor que o Estado deixou de pagar em dívidas com a União.
Mesmo com o comércio fechado em períodos críticos, a arrecadação bruta de 2020 atingiu R$ 35,5 bilhões, provando que a economia local não sofreu a retração esperada. Em 2025, esse número saltou para impressionantes R$ 70,2 bilhões, com um excesso de arrecadação de quase R$ 10 bilhões.
A Defasagem de 20% e o Superendividamento
O estudo do DIEESE aponta que a falta de reposição inflacionária nos últimos anos resultou em uma defasagem salarial que beira os 20%. Esse cenário levou servidores de todos os Poderes e órgãos independentes a uma situação de superendividamento.
Lideranças partidárias na Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT) agora utilizam esses números para apresentar emendas que buscam iniciar a recomposição ainda este ano. O argumento é que o "sacrifício" exigido dos servidores foi o combustível para o superávit que o Governo hoje ostenta.
O Dilema da Assembleia Legislativa
A bola agora está com os deputados estaduais. A proposta de recomposição só terá efetividade se o Tesouro Estadual apurar excesso de arrecadação entre janeiro e maio de 2026.
Resta saber se o Legislativo seguirá o apelo dos servidores, que buscam recuperar o que foi perdido durante os 583 dias de congelamento, ou se manterá o alinhamento com o governador Mauro Mendes, que tem priorizado investimentos em obras de interesse eleitoral e o pagamento rigoroso de emendas à sua base.
Raio-X do Fôlego Financeiro de MT (2019-2026)
Os números explicam por que as lideranças partidárias acreditam haver margem para a recomposição salarial de 20%. Enquanto o funcionalismo enfrentou o congelamento, o Estado acumulou recordes:
1. O impacto da Lei Complementar 173/2020
O "congelamento" durou 583 dias. Nesse período, o funcionalismo público ficou sem reajustes, mas o Estado recebeu um aporte massivo para compensar os supostos riscos da pandemia.
2. A Arrecadação em Ascensão
Diferente das previsões pessimistas do início da crise sanitária, a arrecadação de Mato Grosso manteve curva de crescimento:
2020: R$ 35,5 bilhões (Arrecadação Bruta).
2025: R$ 70,2 bilhões (Arrecadação Bruta), com excesso de quase R$ 10 bilhões.
3. A Situação do Servidor
O estudo do DIEESE é o principal trunfo dos sindicatos:
Defasagem Acumulada: ~20% de perda do poder de compra.
Consequência: Superendividamento de servidores de todos os Poderes.
A eficácia da nova emenda parlamentar depende de um "gatilho" financeiro: o Tesouro Estadual precisa confirmar o excesso de arrecadação no balanço de janeiro a maio de 2026.
Este será o período decisivo para o Olhar Informação acompanhar, pois definirá se o Governo Mauro Mendes manterá a política de superávit para investimentos e obras ou se cederá à pressão pela valorização salarial prometida pela nova lei do Governo Federal.
