Com o primeiro trecho entregue e a polêmica exclusão inicial da Baixada Cuiabana, Mato Grosso monitora venda bilionária para garantir que trilhos cheguem ao Norte.
Cuiabá — Menos de uma semana após inaugurar, ao lado do governador Otaviano Pivetta e do vice-presidente Geraldo Alckmin, o primeiro trecho da Ferrovia Estadual Vicente Vuolo, a Rumo Logística voltou ao centro dos holofotes do mercado financeiro e da política nacional. A companhia está oficialmente à venda.
Segundo revelou o colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo, o Grupo Ultra desistiu formalmente da disputa pela compra da empresa. No entanto, a corrida pelo controle da maior operadora ferroviária privada da América Latina segue acirrada, com outros oito grandes investidores institucionais e grupos logísticos na disputa.
A movimentação financeira é acompanhada com lupa pelo setor produtivo e pelo Palácio Paiaguás. Em Mato Grosso, a Rumo não é vista apenas como uma concessionária comum, mas como a condutora de uma obra de infraestrutura de R$ 15 bilhões que promete interligar Rondonópolis a Lucas do Rio Verde, cortando 16 municípios. O primeiro trecho de trilhos, conectando Rondonópolis a Dom Aquino, acaba de ser entregue após um aporte de R$ 5 bilhões.
A estratégia da Cosan e a "quarta dona" da ferrovia
No mercado financeiro, a venda da operadora é interpretada como uma manobra estratégica e urgente da Cosan — holding controlada pelo empresário Rubens Ometto — para injetar liquidez no caixa e reduzir seu elevado endividamento.
Nos bastidores da infraestrutura nacional, contudo, a situação da empresa resgata críticas antigas. Interlocutores relembram uma frase do atual governador de São Paulo e ex-ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas, que já apontava que os gargalos enfrentados pela Rumo decorriam de uma "ganância" em acumular concessões além de sua capacidade imediata de execução.
Historicamente, a concessão da Ferrovia Senador Vicente Emílio Vuolo já passou por um verdadeiro "jogo de empurra". A Rumo é, atualmente, a quarta empresa a assumir a responsabilidade pela construção e operação do modal. Com a iminente venda de seu controle acionário, o projeto caminha para ter o seu quinto dono oficial.
A polêmica da Baixada Cuiabana e o ritmo das obras
Para a economia de Mato Grosso, a eventual troca de controle acionário não altera os contratos vigentes nem modifica as cláusulas jurídicas de forma automática. A grande preocupação do agronegócio e das lideranças regionais é o ritmo de execução do cronograma.
O projeto ganhou contornos políticos tensos nos últimos anos devido à postura da concessionária em relação à capital do Estado. A Rumo chegou a demonstrar o que críticos apontaram como arrogância ao tratar o ramal da Baixada Cuiabana como uma extensão "não essencial" ou secundária no desenho original, priorizando o escoamento direto do Médio-Norte em direção ao porto de Santos. A pressão política e a modelagem do contrato estadual mantiveram o ramal previsto, mas o episódio deixou marcas na relação com a região metropolitana.
Para um Estado que aguarda há mais de quarenta anos a consolidação dos trilhos como alternativa viável para reduzir o custo do frete e o fluxo pesado de caminhões nas rodovias, o nome do acionista majoritário é o que menos importa. O foco central é garantir que a locomotiva não perca velocidade antes de alcançar o seu destino final.
O site Olhar Informação ressalta que a iminente chegada do quinto consórcio para gerir os trilhos da Ferrovia Vicente Vuolo comprova que, enquanto as empresas sofrem com as oscilações do mercado financeiro, a necessidade de logística eficiente em Mato Grosso permanece inalterada; espera-se que o novo comando trate Cuiabá e o Norte do Estado com o respeito estratégico que a nossa produção exige, entendendo que o progresso regional não pode ser tratado como um ramal opcional.
*FONTE-DIÁRIO DE CUIABÁ
