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22 de Julho de 2026
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Artigos Quinta-feira, 02 de Julho de 2026, 19:14 - A | A

Quinta-feira, 02 de Julho de 2026, 19h:14 - A | A

O Código da Paralisia

Por que o cérebro prefere o sofrimento conhecido (e o peso disso na adicção)

Por - Sidney Moreira de Alencar

Você já se pegou preso em uma situação que adoece, em uma rotina que esgota suas energias ou repetindo os mesmos padrões destrutivos, ano após ano? Diante disso, a tendência quase imediata é o julgamento severo. Olhamos no espelho ou para o outro e decretamos: "Falta força de vontade".

​Mas a neurociência e a psicologia nos dão um choque de realidade que liberta: não é falta de vontade. É o corpo tentando proteger o indivíduo daquilo que ele não consegue mapear.

​A ilusão da sobrevivência previsível

​Para entender por que mudar é uma das tarefas mais complexas da existência, precisamos decifrar o funcionamento do cérebro humano, moldado por milhões de anos de seleção natural. A grande verdade biológica é que o cérebro não avalia se você está feliz; ele avalia apenas se você está vivo.

​E, para o nosso sistema nervoso primitivo, "estar vivo" resume-se a uma única palavra: previsibilidade.

​É por isso que a amígdala — a nossa central biológica de alarmes — dispara um alerta vermelho diante de qualquer mudança. Se é desconhecido, o cérebro não lê como oportunidade; ele lê como ameaça.

​A verdade nua e crua é que a zona de conforto raramente é confortável. Ela é apenas conhecida. O cérebro humano prefere mil vezes a dor que já sabe administrar à possibilidade de uma dor que não sabe controlar.

​O ciclo da Adicção: Quando o refúgio se torna a prisão

​Quando trazemos esse mecanismo para o contexto da dependência química, a dinâmica se torna ainda mais dramática e dolorosa. Para o adicto, o consumo da substância deixa de ser uma busca por prazer e passa a ser uma busca desesperada por regulação e alívio. O cérebro sequestrado pela adicção passa a codificar a droga ou o álcool como o elemento máximo de previsibilidade.

​Para o sistema nervoso de um dependente, a substância é o terreno conhecido — mesmo que esse terreno esteja destruindo sua saúde, suas relações e sua dignidade.

​Quando o adicto tenta parar, a amígdala não enxerga a sobriedade como uma salvação; ela enxerga o "ficar limpo" como o caos absoluto, um território perigoso e sem mapas. A abstinência não é apenas um sofrimento físico, é o corpo gritando que vai morrer porque perdeu o que dava previsibilidade ao seu funcionamento. Por isso, recair muitas vezes não é um ato de rebeldia ou fraqueza de caráter, mas sim o cérebro forçando o indivíduo a voltar para a dor que ele já sabe administrar.

​O choque da realidade no consultório: O preço de quebrar o padrão

​Na minha prática clínica como terapeuta, vejo isso acontecer claramente não apenas na mente do dependente, mas na dinâmica familiar. Na clínica onde trabalhei, atendi um caso emblemático: um jovem paciente cujo pai, na tentativa de protegê-lo ou compensar a dor, fazia absolutamente todas as suas vontades. O resultado? O jovem não valorizava nada e, no linguajar popular dos usuários, "torrava tudo" o que recebia para alimentar o vício.

​A estrutura familiar havia criado uma zona de conforto perversa: o jovem tinha a previsibilidade do recurso fácil para manter sua adicção. Sabendo disso, minha recomendação técnica foi drástica e necessária: orientei o pai a tirar absolutamente tudo, mantendo o suporte financeiro estrito e exclusivo para o básico do tratamento.

​O que aconteceu em seguida confirma a neurociência: houve um alvoroço total. O paciente passou a ter surtos frequentes. Por que esse comportamento violento? Porque aquela retirada de privilégios destruiu o mapa de sobrevivência que o cérebro adicto dele conhecia. Diante do pânico do sistema nervoso do paciente, precisei intervir imediatamente, chamando o psiquiatra parceiro para entrarmos com a medicação adequada para aquele momento de crise. Só assim, rebaixando quimicamente o alerta de ameaça do cérebro dele, conseguimos abrir uma janela para o início do tratamento real.

​Decifrando o código para libertar

​Quando compreendemos esse mecanismo neurobiológico, algo profundo vira a chave. Você para de julgar a si mesmo, ao paciente ou a quem ama pela paralisia e pelas recaídas. Deixa de enxergar o processo como uma falha moral e passa a observar o comportamento com a precisão de quem finalmente enxerga o código por trás do comportamento.

​A transformação — seja para mudar de vida, seja para iniciar a dolorosa jornada da recuperação da dependência — não começa com um rompante de força de vontade utópica. Ela começa com a leitura e a compreensão de como a mente opera.

​Para romper o ciclo de repetição, o adicto e a família precisam entender que o processo envolve cortar as muletas que sustentam o vício. É preciso coragem para enfrentar o alvoroço inicial e apoio especializado para ensinar ao sistema nervoso, um dia de cada vez, que o novo e a sobriedade também podem ser lugares seguros.

​Seja o espectador consciente da sua mente, decifre seus alarmes e entenda: o primeiro passo para a cura é parar de sustentar a ilusão e começar a tratar a biologia do próprio medo.

 

Sidney Moreira de Alencar, Diretor de Tv, Produtor de Eventos e Terapeuta. 

[email protected]

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