Há muito tempo o anúncio de uma lista de convocados para a Seleção Brasileira não despertava um sentimento tão latente no torcedor. O futebol, que por vezes parece anestesiado pelo pragmatismo moderno, recuperou aquela velha eletricidade. Assistir às reações das pessoas, ver a explosão de alegria dos jogadores que receberam o chamado, nos devolve um pouco da pureza que andava sumida.
Minha jornada acompanhando Copas do Mundo começou em 1970. Lembro-me de ouvir os jogos pelo rádio, ao lado do meu pai. Naquela época, eu não tinha noção técnica alguma sobre o esporte, mas a atmosfera daquele tricampeonato ficou eternamente guardada no meu armazenamento emocional. Em 1974, já mais consciente, vivi o impacto da ausência de Pelé. Desde então, aprendi uma constante: toda convocação gera barulho. Nenhuma passa em branco. No entanto, o frisson causado por esta última lista foi diferente de tudo o que vimos recentemente.
No centro desse turbilhão está Carlo Ancelotti. O treinador foi cirúrgico. Embora uma parcela do público e da crítica ainda resista à sua estratégia, há uma clara coerência no rumo que ele desenha para o Brasil — e a tendência é que os céticos acabem se rendendo ao seu plano de jogo.
Mas o verdadeiro epicentro da divisão nacional atende por um nome: Neymar.
A convocação do camisa 10 escancarou uma polarização raramente vista. De um lado, os críticos apontam o dedo para o seu posicionamento político, seu comportamento extracampo, a fama de "marrento" e o estilo de vida badalado. Do outro, há o reconhecimento do campo. Particularmente, faço parte dos que defendem sua presença. Neymar é um craque autêntico, uma espécie em extinção no futebol brasileiro. Se antes nos dávamos ao luxo de ter várias referências técnicas dividindo o protagonismo, hoje vivemos a era do craque único. Ele é o diferencial.
Se o torcedor decidisse condicionar seu apoio à conduta estritamente pessoal dos atletas, a história do futebol brasileiro estaria vazia; deixaríamos de torcer por muitos dos maiores gênios do passado, que também eram figuras complexas e controversas fora das quatro linhas. Além disso, se formos olhar para o lado pessoal, que se olhe também para o impacto social: o trabalho silencioso que ele realiza através de sua fundação, transformando a vida de milhares de crianças, merece tanto peso quanto as páginas de fofoca.
Essa convocação barulhenta e polarizada pode ser, ironicamente, o combustível que faltava. É bem provável que Neymar nunca tenha sentido o peso e o significado de ser chamado para defender o Brasil como sentiu desta vez. Que ele tire proveito dessa polêmica, reflita sobre a magnitude de sua carreira e use essa energia dentro de campo.
O futebol respira quando há paixão, mesmo que ela venha fantasiada de debate. A mesa está posta, a estratégia está desenhada.
Pra cima, Brasil!
