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20 de Julho de 2026
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Artigos Sábado, 13 de Junho de 2026, 11:12 - A | A

Sábado, 13 de Junho de 2026, 11h:12 - A | A

El Niño

Cuiabá e a cidade que insiste em perder sombra

POR - SILVIA MARA SILVA DE ARRUDA MARTINS

Cuiabá precisa falar sobre o clima com a seriedade que o tema exige.

O alerta para o El Niño em 2026 não pode ser tratado como uma notícia distante, restrita aos boletins meteorológicos. Quando se fala em aumento de temperatura, seca, chuva irregular e eventos extremos, estamos falando da vida real de quem mora em Cuiabá.

Estamos falando de quem atravessa avenidas sem sombra. De quem espera ônibus debaixo de sol forte. De quem caminha por calçadas impermeáveis. De quem vê a cidade alagar quando chove demais e virar um forno quando a chuva desaparece.

O clima já mudou a rotina da cidade.

Cuiabá conhece bem os dois extremos. Quando falta chuva, vêm a seca, a poeira, a baixa umidade, o calor intenso e a sensação térmica insuportável. Quando a chuva vem com força, a água encontra asfalto, concreto, calçadas impermeáveis, bueiros sobrecarregados e pouca infraestrutura verde. O resultado também é conhecido: alagamentos, transtornos, prejuízos e risco para a população.

E, justamente nesse cenário, seguimos perdendo árvores.

Árvores adultas estão sendo cortadas, mutiladas ou removidas. Copas inteiras desaparecem. A sombra some. A cidade esquenta. E, muitas vezes, tudo isso acontece sem que a população tenha acesso claro aos laudos, aos critérios técnicos, às autorizações, às compensações e à fiscalização.

Não existe adaptação climática possível em uma cidade que trata árvore como obstáculo.

Árvore urbana não é enfeite. Não é detalhe paisagístico. Não é luxo. Árvore é infraestrutura climática. É sombra, saúde pública, conforto térmico, retenção de água, qualidade do ar, abrigo para a fauna e dignidade urbana.

Uma cidade como Cuiabá não pode enfrentar seca, calor extremo e chuvas intensas destruindo sua própria proteção natural.

Também não basta plantar mudas pequenas em datas comemorativas e chamar isso de política ambiental. Arborização urbana exige planejamento, espécie adequada, espaço adequado, irrigação, manutenção, acompanhamento técnico e garantia de sobrevivência. Exige também respeito às árvores adultas, que levaram anos para formar copa e prestar serviços ambientais à cidade.

Cuiabá precisa executar o Plano Diretor de Arborização Urbana.

Não dá mais para adiar. O PDAU precisa sair do papel e se transformar em política pública com metas, orçamento, cronograma, fiscalização e transparência. A cidade precisa saber onde serão feitos os plantios, quais espécies serão utilizadas, quem será responsável pela manutenção e como a população poderá acompanhar os resultados.

Também precisamos ir além da árvore isolada. Cuiabá precisa de corredores verdes, jardins de chuva, calçadas permeáveis, canteiros estruturados, praças sombreadas, pontos de ônibus protegidos, avenidas arborizadas e obras públicas que incluam o verde desde o projeto, e não como sobra decorativa no final.

A Avenida do CPA, por exemplo, deveria ser símbolo de transformação urbana. Uma avenida dessa importância não pode continuar sendo apenas concreto, calor e oportunidade perdida. Mesmo onde há limitação de solo, existem soluções técnicas, como plantios elevados, canteiros estruturados e infraestrutura verde capaz de devolver sombra e conforto à população.

O problema não é falta de possibilidade. É falta de prioridade.

E aqui é preciso perguntar: onde estão as decisões públicas capazes de preparar Cuiabá para os extremos climáticos?

Onde está a execução do PDAU? Onde está a fiscalização das podas e supressões? Onde está a transparência das compensações ambientais? Onde estão os projetos de drenagem verde? Onde estão as metas de arborização para as avenidas, bairros e praças?

A população não pode ser chamada apenas para suportar o calor, enfrentar alagamentos e assistir calada à perda das árvores. A população precisa ser informada, ouvida e respeitada.

O El Niño acende o alerta. Mas o despreparo urbano é responsabilidade local.

Se Cuiabá continuar impermeável, desarborizada e sem planejamento, a conta chegará para todos. Chegará em forma de mais calor, mais alagamentos, mais desconforto, mais prejuízo e menos qualidade de vida.

Ainda há tempo de escolher outro caminho.

Mas é preciso agir agora.

Porque sem árvores, sem solo permeável e sem política pública, Cuiabá não enfrenta o clima.

Apenas sofre as consequências.

Silvia Mara Silva de Arruda Martins 

E-mail: [email protected]

Instagram: @projetocuiabamaisverde

Fontes consultadas:
Organização Meteorológica Mundial, atualização sobre El Niño/La Niña, junho de 2026.
NOAA Climate Prediction Center, ENSO Diagnostic Discussion, junho de 2026.
INMET, previsões sobre aumento da probabilidade de El Niño em 2026.
CPTEC/INPE, informações técnicas sobre El Niño, La Niña e impactos nos padrões de temperatura e precipitação.

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