Por - Oscar Soares Martins
Os recentes alertas do Banco Central do Brasil, sobre a insegurança digital do Brasil, não deve ser interpretado como uma preocupação restrita ao sistema financeiro. Ele evidencia uma fragilidade estrutural que se estende por praticamente todos os setores da economia e da administração pública brasileira: a persistente visão de que cibersegurança é um tema exclusivamente técnico, limitado às áreas de tecnologia da informação. Esse paradigma já não se sustenta.O risco cibernético, na atualidade, deve ser compreendido como risco de negócio, com impactos diretos sobre a continuidade operacional, a estabilidade financeira, a reputação institucional e a conformidade regulatória. No entanto, seus efeitos vão além das organizações individualmente consideradas, alcançando dimensões institucionais e sociais.Incidentes de segurança não se resumem a perdas financeiras decorrentes de fraudes ou pagamentos de resgate. Envolvem, de forma crescente, a indisponibilidade de serviços essenciais, a perda ou comprometimento de dados críticos e a interrupção de operações estratégicas.Exemplo recente reforça essa realidade: neste final de semana, instituições como BTG e Nubank enfrentaram instabilidades relevantes em seus serviços, com impacto direto em operações via PIX — sendo reportado, no caso do BTG, prejuízo superior a R$ 100 milhões. Episódios como esse evidenciam que mesmo organizações altamente estruturadas não estão imunes a falhas operacionais com efeitos imediatos e significativos.No setor público, esses impactos assumem proporções ainda mais relevantes. A indisponibilidade de sistemas de secretarias de fazenda, por exemplo, compromete a arrecadação, afeta a execução orçamentária, interrompe serviços ao cidadão e gera efeitos em cadeia sobre fornecedores e políticas públicas. Trata-se de um prejuízo que não pode ser mensurado apenas sob a ótica financeira — seus efeitos recaem diretamente sobre a sociedade.Nesse contexto, a cibersegurança deve ser compreendida como elemento essencial para a continuidade do Estado, o funcionamento das instituições e a estabilidade econômica. Há ainda um componente adicional que demanda atenção crescente: a soberania digital.A circulação de dados estratégicos — de empresas, governos e cidadãos — em ambientes sem controle adequado, bem como a dependência de infraestruturas e serviços externos, ampliam a exposição a riscos que extrapolam o âmbito tecnológico. Trata-se de uma questão de autonomia, competitividade e capacidade de resposta diante de incidentes ou pressões externas.Apesar da crescente sofisticação das ameaças, o principal desafio enfrentado pelas organizações não é, em regra, a ausência de soluções tecnológicas. O Brasil já dispõe de ferramentas e serviços robustos, amplamente testados e adotados em ambientes críticos, tanto no país quanto no exterior.A lacuna central reside na governança.Em muitas organizações, a área de tecnologia já possui diagnóstico claro dos riscos existentes. Contudo, essa percepção não se traduz, na mesma intensidade, em prioridade estratégica por parte da alta gestão. A segurança da informação ainda é, com frequência, tratada como centro de custo, e não como instrumento de proteção do negócio e de mitigação de riscos institucionais.Esse desalinhamento cria um ambiente propício à ocorrência de incidentes e amplia a vulnerabilidade organizacional.Diante desse cenário, torna-se indispensável que a cibersegurança seja incorporada de forma estruturada à agenda estratégica das organizações, públicas e privadas. Isso implica sua inclusão em conselhos de administração, comitês de risco, processos de planejamento e decisões de investimento.Mais do que um tema técnico, trata-se de um tema de liderança.Ignorar a centralidade da cibersegurança no contexto atual deixa de ser uma decisão operacional e passa a configurar uma decisão de gestão com impactos diretos sobre terceiros — sejam eles cidadãos, clientes, investidores ou parceiros institucionais.Em última análise, os eventos recentes indicam que a questão já não é se uma organização será impactada por um incidente cibernético, mas quando isso ocorrerá e qual será seu nível de preparo para responder, mitigar danos e assegurar a continuidade de suas operações.O Brasil dispõe dos meios tecnológicos necessários para enfrentar esse desafio.O que se impõe, neste momento, é a tomada de decisão em nível de governança — com prioridade, responsabilidade e visão estratégica compatíveis com a relevância do tema.Oscar Soares Martins – consultor e especialista em cibersegurança e em IA.
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