Em Cuiabá, a destruição de árvores urbanas tem sido tratada como algo normal, rotineiro e inevitável. Sob a justificativa recorrente de “liberar a passagem dos fios”, concessionárias de serviços públicos realizam podas severas, agressivas e tecnicamente inadequadas, que nada têm de manejo arbóreo e muito menos de poda de condução.
O que se vê nas ruas não é técnica, é mutilação.
Árvores adultas, que levaram décadas para se formar, são transformadas em tocos disformes, condenadas à morte lenta ou à perda total de sua função ambiental. Tudo isso sob o argumento fácil de que “o fio precisa passar”. Não precisa. O que falta não é espaço — falta planejamento urbano, integração entre redes e fiscalização efetiva.
O excesso de fiação aérea em Cuiabá é evidente. Fios se acumulam de forma desordenada, sobrepostos, sem qualquer padrão ou racionalidade. É tecnicamente possível reduzir drasticamente essa quantidade, reorganizar redes e compatibilizar infraestrutura com arborização urbana. O que nunca houve, em nenhuma gestão, foi a exigência do poder público para que isso fosse feito.
A responsabilidade pelas autorizações de poda e pela fiscalização é da Prefeitura. No entanto, essa atribuição tem sido sistematicamente negligenciada. Não há controle efetivo, não há acompanhamento técnico contínuo, não há transparência. As equipes que executam essas intervenções, em sua maioria, não são capacitadas em manejo arbóreo urbano, não seguem normas técnicas e não realizam poda de condução, que é o procedimento adequado em áreas com redes aéreas.
Poda de condução não destrói a árvore. Direciona seu crescimento, preserva sua estrutura e permite a convivência com a infraestrutura urbana. O que ocorre em Cuiabá é o oposto: cortes aleatórios, desproporcionais e irreversíveis, feitos sem critério técnico e sem respeito à fisiologia vegetal.
Outro tema sistematicamente evitado é o da fiação subterrânea. Sempre que surge, o argumento é o custo. Sim, é caro. Mas também é caro manter uma cidade cada vez mais quente, hostil, sem sombra, com aumento do consumo de energia, sobrecarga do sistema de saúde e perda de qualidade de vida.
Curiosamente, recursos nunca faltam para obras mal planejadas, contratos questionáveis ou para responder a escândalos revelados por operações policiais e investigações jornalísticas. Mas sempre faltam quando o assunto é estruturar a cidade para quem vive nela.
Há ainda um componente perverso nessa equação: quem decide, em geral, vive em áreas com fiação subterrânea, arborização planejada, ruas sombreadas e conforto térmico. A cidade real — quente, árida e cada vez mais inóspita — é experimentada pela maioria da população, que paga o preço da omissão histórica do poder público.
Árvores urbanas não são obstáculo. São infraestrutura ambiental essencial. Elas reduzem a temperatura, melhoram a qualidade do ar, contribuem para a drenagem urbana, reduzem o consumo de energia e impactam diretamente a saúde e o bem-estar da população.
Destruir árvores para manter um modelo ultrapassado, desordenado e mal fiscalizado de infraestrutura urbana não é inevitável. É escolha. E escolhas têm responsáveis.
Cuiabá precisa decidir se continuará tratando o verde como problema ou se, finalmente, assumirá que não há cidade possível sem árvores, planejamento e responsabilidade pública.
Silvia Mara Silva de Arruda Martins
Advogada, ambientalista, presidente da Associação Cuiabá Mais Verde
